O Nono Mandamento



Nosso desejo de olhar para o nono mandamento é o de honrar a Cristo como a verdade de Deus (cf. João 1.17; 14.6)

É triste o fato de que muitos de nós, cristãos, consideramos os dez mandamentos de maneira muito limitada. Não falo de um mandamento em particular, mas de todos eles. Não meditamos sobre suas importantes e profundas implicações.

Para compreendermos o significado de um determinado mandamento, não é suficiente que façamos uma leitura superficial. O salmista nos diz: "Bem-aventurado o homem que tem o seu prazer na Lei do SENHOR, e na Sua Lei medita de dia e de noite" (Sl 1.1-2). É necessário que paremos por um tempo para refletir e meditar sobre cada um dos mandamentos, para que então possamos alcançar entendimento sobre eles. Infelizmente, mesmo aqueles que conhecem os Dez Mandamentos, não raramente fazem uma leitura extremamente superficial de cada um deles. Isso é porque não meditam na Lei do Senhor.

Olhando para o nono mandamento, em particular, o que você pensa que ele exige? Colocarei o texto de Êxodo 20.16 na íntegra e quero que se esforce para pensar o quão abrangente ele pode se tornar.

"Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" 

Com um pouco de esforço, poderá encontrar diversas aplicações para esse mandamento. Ele nos proíbe de mentir e de levantar calúnias sobre outras pessoas, por exemplo, mas suas implicações vão além disso. O Catecismo Maior de Westminster nos diz algumas coisas sobre este texto em sua pergunta 144:
R. Os deveres exigidos no nono mandamento são preservar e promover a verdade entre os homens; preservar e promover a boa reputação do nosso próximo, bem como a nossa própria; evidenciar e defender a verdade; falar a verdade, e somente a verdade, de coração, sincera, livre, clara e plenamente, em questões de juízo e em todos os demais casos, sejam quais forem; estimar caridosamente nossos semelhantes; amar, desejar e regozijar-se na sua boa reputação; entristecer-se por suas fraquezas e encobri-las; reconhecer desinteressadamente seus dons e graças, defendendo a sua inocência; acolher prontamente as informações bendizentes a seu respeito e resistir às maldizentes; desencorajar boateiros, aduladores e difamadores; prezar pela e cuidar da nossa própria reputação e defende-la, quando necessário; cumprir as promessas lícitas; buscar e praticar tudo o que for verdadeiro, honesto, amável e de boa fama.
Em contrapartida aos deveres exigidos, o que chamamos de santidade positiva, temos também uma descrição dos pecados que são proibidos na pergunta seguinte, dentre os quais podemos citar:
R. [...] tudo quanto prejudica a verdade e a boa reputação de nosso próximo, bem assim a nossa [...] manter-nos tranquilos quando a iniquidade [exige uma] repreensão de nossa parte; falar a verdade inoportunamente, ou com malícia, para um fim errôneo [...] interpretar de maneira má as intenções, palavras e atos de outrem [...] agravar as faltas menores [...] descobrir desnecessariamente as fraquezas de outrem; receber e acreditar em rumores maus [...] suspeitar o mal [...] regozijar-se na desgraça ou na infâmia de alguém.
Diante disso, podemos aprender algumas coisas:

1.  É importante zelar e promover a reputação de nosso próximo.


Não gostamos de ter nosso nome envolvido em fofocas e nos magoamos quando outras pessoas têm conceitos errados sobre nossas atitudes. Essa é uma atitude correta, afinal, também temos o dever de cuidar de nosso próprio nome.

Mas quando se trata do nome de outras pessoas, a história é outra. A primeira coisa que deveríamos ter em mente é que o bom nome e a reputação de uma pessoa são bens valiosos. Quando abrimos nossos lábios para denegrir a imagem de alguém, estamos golpeando e roubando esse bem. Salomão sabia disso e nos diz: “Mais vale o bom nome do que as muitas riquezas” (Pv 22.1a).

Demora-se muito tempo para construir uma boa reputação e um bom nome, mas apenas algumas conversas para destruí-los.

O que devemos fazer diante disso?

Uma irmã piedosa chamada Simone Quaresma nos diz uma coisa muito importante que pode nos ajudar; ela diz:

“Todas as vezes que vier em seu coração o desejo de criticar a vida e as atitudes de um irmão, prefira exaltar suas qualidades, pois ele certamente as tem! Quando estiver numa roda de amigos e o ‘prato principal’ estiver sendo devorado, seja aquela voz que destoa e prefere promover a boa reputação da pessoa que é o alvo dos comentários!

Você conhece pessoas que, ao invés de se alegrarem com o progresso e as vitórias de alguém, sempre têm algo negativo a dizer sobre ela? Simplesmente não conseguem se alegrar por verem o bom nome de um irmão ser promovido, mas invejosamente arrumam um jeito de denegrir a imagem alheia [...] Afaste-se de pessoas assim, se não quer ser contaminado por esse [veneno]”.
[1]

É disso que o salmista nos adverte: “Refreia a língua do mal e os lábios de falarem dolosamente” (Sl 34.13).

2. Devemos nos entristecer por suas fraquezas.

Talvez essa seja uma das nossas grandes dificuldades: nos entristecer pelo pecado de nossos irmãos. Isso é o que mais nos torna mesquinhos e arrogantes.
Quando vemos nossos irmãos caídos em pecado, nosso coração soberbo é revelado! Parece que nunca pecamos ou que nunca precisamos correr envergonhados para Cristo.
Muitas vezes nós temos um desejo secreto e sombrio de ouvir uma história bem feia, e, mesmo sem percebermos, nos alegramos por ver nosso irmão na lama do pecado.

Talvez seja porque isso nos dá uma sensação superioridade e santidade. É como se nós pensássemos: “Quanto pior ele for, melhor eu sou. Ele faz isso, eu não. Olha como eu sou um bom crente”.

Isso pode ser visto claramente quando descobrimos que alguém que estávamos aconselhando quebrou a cara. Nós mostramos a alguém o melhor caminho, procuramos aconselhar da melhor maneira, mas a pessoa insiste em fazer o que é ruim. Então, quando recebemos uma notícia de que a consequência do pecado veio sobre ela, muitas vezes temos, lá no fundinho, aquela sensação: “eu não disse? Eu estava certa! Eu avisei”. Daí então comentamos o que aconteceu com outras pessoas, fazemos questão de exaltar o quanto nossos conselhos foram sábios e como a irmã foi imprudente.

O que é isso, se não o alegrar-se com a fraqueza de nossos irmãos? A verdade é que nós ficaríamos com vergonha de rir abertamente de um pecado que alguém cometeu, mas fazemos isso de outras maneiras. Mostrando nossa insatisfação, frisando que nós nunca seríamos capazes de fazer o mesmo e procurando de todas as maneiras comentar o acontecido.

Além de me contristar pelo pecado de meu irmão, sabendo que eu poderia ter caído no mesmo erro, o mandamento me ensina também...

3. Encobrir amorosamente suas faltas.

Nós temos o dever de encobrir as fraquezas de nossos irmãos. Isso é o que está em Provérbios 17.9: “O que cobre uma ofensa promove amor, mas quem a lança em rosto separa bons amigos” (NVI).
  
Claro, devemos dizer que isso não significa que os pecados não devam ser tratados. Mas é fato que não podemos usar a verdade para o mau. Um Teólogo chamado Geehardus Vos, comentando o Catecismo Maior de Westminster nos ajuda dizendo que “as vezes temos o dever de ocultar algo daqueles que não têm o direito de conhecer. Ocultar a verdade é um pecado quando escondemos algo daqueles que têm que o direito de o conhecer...”[2]

Isso significa que não temos o direito de contar tudo o que sabemos de outros para todos.

Quando soubermos que algum irmão nosso pecou, temos o dever de adverti-lo e, caso ele não se arrependa, tomar as devidas providências conforme Mateus 18.15-17: “Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à Igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano”.

Nós, de fato, temos que fazer alguma coisa. Não podemos simplesmente deixar nosso irmão vivendo em pecado, sem uma correção. Mas nós não temos o direito de envergonha-lo ou difama-lo, de modo que sua reputação venha ser prejudicada.

Descobrimos a falta de um irmão? Como nosso coração reage a isso? Com tristeza ou alegria? O que fazer depois de avaliar minha intenção? Em primeiro lugar, devo me calar e me esforçar para não comentar o ocorrido, sob qualquer pretexto, com pessoas que não estejam envolvidas, e ter muito temor e respeito pelo assunto tratado. “Descobrir desnecessariamente as fraquezas é como o Catecismo descreve aquilo a que [chamamos] comumente de fofocar as falhas e defeitos dos outros”[3]

Além de não espalhar boatos nem descobrir os pecados de nossos irmãos...

4.  Defendermos a sua inocência.

Essa é uma questão de responsabilidade moral para com Deus e de dever para com nosso próximo.

Quando estamos numa roda de amigos, onde se fala sobre a vida de alguém que não está presente e algo é dito sobre a conduta ou a moral desta pessoa e nós notamos que há exageros ou inverdades e não nos pronunciamos para defender sua inocência, nós nos tornamos tão pecadores quanto aqueles que estão espalhando boatos. Nosso silencio, em casos como este, é pecaminoso. É pecado deixar um falso rumor prevalecer.

Nós devemos defender nossa igreja, nossos pastores e nossos irmãos na fé. Eles caminham conosco. O que pensarem deles estará intimamente ligado ao que pensam de nós. Por exemplo: quando falamos que somos evangélicos, somos imediatamente taxados como tolos. Por que? Porque a igreja está sendo mal falada e nós fazemos parte da igreja (e as vezes, nós mesmos falamos mal da igreja).
Devemos seguir o conselho de Salomão: “Desvia de ti a falsidade da boca e afasta de ti a perversidade dos lábios” (Pv 4.24).

Por fim, gostaria de dizer que nós só conseguiremos cumprir o nono mandamento quando

5.      Resistirmos às informações maldizentes.

Se nos sentarmos à beira da piscina, com certeza nos molharemos. Assim, se participarmos de conversas onde outras pessoas fofocam, com certeza nós também fofocaremos. É nosso dever, além de não divulgar as falhas e os pecados de nossos irmãos, não recebermos fofocas. Quanto mais à vontade as pessoas se sentirem para falar mal dos outros pra você, mais apavorado você deve ficar. Não é algo comum que todas as suas amigas te procurem para fofocar dos outros. Isso pode significar que durante muito tempo você recebeu e alimentou esse tipo de informações pecaminosas sobre os outros, de modo que sempre que há uma novidade, as pessoas te veem como alguém que gosta de tratar da vida dos outros.

Devemos orar pra que não sejamos esse tipo de pessoa. Devemos orar para não nos assentarmos na roda de pessoas fofoqueiras. O provérbio nos diz: “O mexeriqueiro revela o segredo; portanto, não te metas com quem muito abre os lábios” (Pv 20.19).

Que Deus nos ajude e que sejamos diligentes para preservar a boa reputação de nossos irmãos. É verdade que nossa palavra tem muito poder. Como Tiago nos diz:

“[...] a língua é um pequeno membro, e se gaba de grandes coisas. Vede quão grande bosque um tão pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniqüidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno” (Tiago 3.5-6)

Portanto, devemos usá-la somente para o que trás beneficio de nosso próximo e glória para Deus.



[1] Simone Quaresma. A Mulher Piedosa e a quebra do nono mandamento, Kindle Position: 212.
[2] Geehardus Vos, Johannes. Catecismo Maior de Westminster comentado: Editora Os Puritanos, p. 499.
[3] Geehardus Vos, Johannes. Catecismo Maior de Westminster comentado: Editora Os Puritanos, p. 455. 


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