A miséria ama companhia



2º DIA DO SENHOR

Pergunta 3. Como você conhece a sua miséria?
Resposta. Pela lei de Deus.

Pergunta 4. O que a lei de Deus exige de nós?
Resposta. Cristo nos ensina isso resumidamente em Mateus 22.37-40 "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas".

Pergunta 5. Você consegue guardar essa lei perfeitamente?
Resposta. De modo algum, porque por natureza sou inclinado a odiar a Deus e a meu próximo.

Em comparação com a quantidade de tempo gasto em outros tópicos, o Catecismo de Heidelberg gasta pouco tempo com a depravação humana. No Catecismo, a seção sobre a graça cobre 27 Dias do Senhor e 74 Perguntas e Respostas. A seção sobre a gratidão é um pouco mais curta, cobrindo 21 Dias do Senhor e 44 Perguntas e Respostas. A seção sobre a culpa é, de longe, a mais curta, com apenas 3 dias do Senhor e 9 Perguntas e Respostas. Os autores do Catecismo de Heidelberg queriam um instrumento de conforto, e não de condenação.

Mas eles também perceberam que o conforto verdadeiro e duradouro só pode vir para aqueles que sabem da sua necessidade de serem consolados. A primeira coisa de que precisamos, a fim de experimentar o conforto do evangelho, é nos tornarmos desconfortáveis com o nosso pecado. O conforto do evangelho não foge da questão do pecado, ou o ignora como os pregadores do pensamento positivo e os gurus da autoajuda. Ele o olha direto nos olhos, reconhece-o e lida com ele. Enquanto muitas pessoas nos dizem para parar de nos concentrar no pecado e nos animar porque não somos pessoas "más", o Catecismo nos diz exatamente o oposto. Para obter conforto, é preciso primeiro ver a nossa miséria produzida pelo pecado.

E o caminho para enxergarmos a nossa miséria é pela lei. A lei é boa (1 Tm 1.8), então o problema não se encontra na lei em si. O problema é que não conseguimos guardar a lei. Qualquer meditação, cuidadosa e prolongada, sobre os Dez Mandamentos, vai deixar a pessoa honesta se sentindo sombria, pessimista e deprimida. A Bíblia está cheia de muitos mandamentos éticos maravilhosos, o que seria muito inspirador, exceto pelo fato de que nós não somos pessoas éticas maravilhosas.

Muitas vezes ouvimos que todas as religiões são basicamente iguais no sentido que todas elas nos incentivam a amar nosso próximo, ajudar os pobres, perdoar os outros e, em geral, sermos pessoas gentis e compassivas. Mesmo que isso fosse verdade (o que não é quando você leva suas considerações as causas últimas), ficaria faltando o ponto fundamental, porque o cristianismo não é uma religião cujo principal objetivo gira em torno da observação de um código moral. O cristianismo se trata de um Deus que salva as pessoas que não guardam o código moral.

A lei não me inspira a ser uma pessoa melhor ou a encontrar o deus dentro de mim. A lei me esmaga e me mostra como sou miserável. 
Mas sejamos claros: Jesus acreditava na lei. Ele não veio para aboli-la (Mt 5.17). Jesus quer que amemos a Deus e ao próximo como o cumprimento de todas as regras e regulamentos do Antigo Testamento. É por isso que Jesus ensinou esse resumo simples e bonito da lei, conforme registrado em Mateus 22.

Porém, o padrão de Jesus é inatingível. Costumo ouvir o evangelho (mal) explicado hoje em dia como sendo apenas um convite para um modo de vida. É dito, por exemplo, que a declaração de Jesus em João 14.6 sobre ser o caminho, a verdade e a vida simplesmente significa, para alguns, que Jesus é a melhor maneira de se viver. É certamente verdade que Jesus é a melhor maneira de se viver, mas ninguém vive como Jesus. Nós nunca vivemos e nunca viveremos.

Nós não vivemos como Jesus, porque sem a obra do Espírito em nossa vida, não conseguimos. A maioria de nós não consegue manter a nossa casa limpa como gostaríamos, ou ficarmos dentro de um orçamento como desejaríamos, ou gerirmos o nosso tempo como pretendíamos. Então, o que nos faz pensar que podemos viver como Jesus e fazer tudo o que um Deus santo exige de nós? O Catecismo coloca a questão sem rodeios: "Por natureza sou inclinado a odiar a Deus e a meu próximo". Essa frase resume um gigabyte de ensino bíblico. Ninguém é justo (Rm 3.10). Todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23). O coração humano é enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente corrupto (Jr 17.9). O homem natural está morto em delitos e pecados (Ef 2.1). Por natureza, nós passamos nossos dias em malícia e inveja, odiados pelos outros e odiando-nos uns aos outros (Tt 3.3). As passagens continuam chegando, nos forçando à submissão até que cedemos, "Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos... ai de mim! Estou perdido!" (Is 6.3, 5)

Não conseguimos guardar os mandamentos perfeitamente. Nenhum dos dez. Nem sequer dois. Não é irônico que o Catecismo nos mostre a nossa miséria por meio de uma das passagens devocionais mais queridas de toda a Bíblia? Todo mundo ama Mateus 22. "Basta ensinar os dois grandes mandamentos", as pessoas dizem. "Evite disputas teológicas. Evite doutrina e proposições. Ame a Deus e ame ao próximo - isso é o que significa seguir a Jesus". É verdade, mas para onde é que nos voltamos para obter conforto quando desprezamos a Deus e ignoramos o nosso próximo pela décima vez no mesmo dia? Você realmente ama a Deus com cada fibra do seu ser, nunca colocando qualquer pessoa ou sonho ou bem antes dele? E você realmente ama o seu próximo como a si mesmo, sempre torcendo pelo progresso dos outros, sempre colocando as necessidades dos outros à frente das suas próprias, se sempre tratando os outros como você gostaria de ser tratado?

Muitas pessoas, lideres bem-intencionados da igreja inclusive, estão ansiosas para resumir o cristianismo aos dois grandes mandamentos, ou ao Sermão do Monte, ou às Bem-aventuranças, ou a algum poderoso resumo de outras intenções éticas de Deus. Porem, se tudo o que tenho são as intenções éticas de Deus para minha vida, estou numa situação desesperadora. Eu vou ser condenado, desanimado e consternado se ser um seguidor de Jesus não significar nada mais do que um novo conjunto de coisas que tenho de fazer para ele. Em vez disso, seguir a Jesus deve ser, antes de tudo, uma declaração de tudo o que ele fez por mim.

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Kevin DeYoung. As boas-novas que [quase] esquecemos. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 25-28.

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